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Comunidade do Pontilhão mantém tradição de altares em frente às casas no Corpus Christi

Enquanto nas grandes cidades a celebração de Corpus Christi é marcada por quilômetros de tapetes de serragem que cobrem o asfalto das avenidas principais, na comunidade rural do Pontilhão, em São Mateus do Sul, a manifestação de fé preserva uma essência íntima, comunitária e tradicional.

 

Tradição iniciada há mais de 60 anos pelos fundadores da Capela Santo Antônio, Dona Cesarina e Sr. Albino Gugelmin, confeccionar altares montados diretamente em frente às casas e comércios dos moradores para receber a hóstia sagrada mantém-se viva. A singularidade desse formato motivou a cobertura especial da festividade este ano, evidenciando como a herança cultural e o sentimento de vizinhança sobrevivem ao avanço do tempo e da tecnologia. A montagem dos altares envolve semanas de dedicação e  esforço coletivo de vizinhos que compartilham materiais e talentos. 

Maria Cleide Ferreira dos Santos, empresária local e ex-agricultora, relata que a preparação do altar em frente ao seu mercado levou cerca de três semanas de planejamento mental. Este ano, a montagem teve um significado ainda mais profundo para ela e seus colaboradores. "Essa vez foi muito marcante porque celebramos os 25 anos que o mercado está sendo tocado. O Seu Eloi, que era o dono, era muito devoto do Sagrado Coração de Jesus. Foi uma homenagem que nós conseguimos fazer para manter a imagem dele ligada a uma pessoa boa que faz o bem", explica Maria Cleide.

Diferente dos centros urbanos, onde moldes e painéis prontos são facilmente adquiridos, no Pontilhão a beleza nasce do improviso e da colaboração. O tapete de Maria Cleide contou com flores trazidas por vizinhas, empréstimos de peças decorativas e desenhos feitos à mão livre, como uma representação da Santa Ceia esboçada por membros da própria comunidade. "Tem a comunidade inteira participando desse tapete. É uma bênção que a gente recebe quando é convidado para fazer", conclui.

Para quem vive na comunidade, os altares espalhados ao longo da estrada não são apenas ornamentos passageiros, mas marcos de histórias pessoais profundas. A professora Heloísa Aparecida Adriansky Ramos, participa da procissão desde o nascimento e guarda uma lembrança marcante de 14 anos atrás, quando o altar da comunidade saiu de sua própria casa. Naquela época, Heloísa enfrentava problemas de saúde e passava por uma separação conjugal. Durante a passagem do Santíssimo Sacramento, sua mãe fez uma prece fervorosa.  "Com as bênçãos de Deus, eu melhorei dos problemas de saúde e hoje a gente voltou ao casamento. Na semana passada, nós fizemos 21 anos de casados. Para a nossa família, é um encontro com Jesus de uma maneira mais especial, sabendo que Ele está vivo na hóstia consagrada", emociona-se a professora.

A preservação desse costume é assegurada por gerações que se recusam a deixar a tradição morrer. As lavradoras Maria Gessi Giehl Kieling, e Alice Adrianczyk, atuam hoje como ministras da Eucaristia e lembram com saudade de como as procissões antigamente contavam até com a queima de fogos a cada altar visitado.

Mesmo com o esvaziamento histórico da região, que no passado abrigou uma grande serraria pertencente à família Gugelmin e ostentava um volume maior de moradores, o Pontilhão continua a atrair antigos residentes e moradores de comunidades vizinhas durante suas celebrações religiosas.

Quando questionadas sobre o sentimento que define a celebração de Corpus Christi na comunidade rural, a resposta de ambas é unânime. "Gratidão a Deus por estarmos conseguindo seguir em frente com muita fé, devoção e saúde", finaliza Alice.

Texto: Rauane Rodrigues

Revisão: Emanuelle Nunes

Supervisão: Paulo Pessôa Neto

Fotos: Rauane Rodrigues

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