Materiais doados pela comunidade ajudam a contar história do Hip-Hop na cidade
“Essa é a história de um moleque que, aos dezessete anos, sonhava em fazer rap. Um moleque que encontrou na cultura Hip Hop uma forma de expressar aquilo que carregava dentro de si: uma arte que não nasce, uma arte que vem buscar.” A trajetória de Ismael Alves dos Santos, o “Gueg”, é marcada pela relação com a cultura Hip Hop e pela construção de um movimento que hoje ganha espaço no Museu dos Campos Gerais. Foi neste ritmo, que no Dia Nacional do Hip Hop, 11 de agosto,foi aberta a exposição “Hip-Hop no Museu Campos Gerais”. O acervo reúne fotografias, discos, registros de batalhas de rima e outros materiais relacionados à cultura Hip Hop em Ponta Grossa.
A exposição foi aberta com apresentações de rap e break dance, pilares da cultura Hip Hop. Gueg, ao contar sua história, exemplificou como a cultura vem da necessidade de ser resistência, de denunciar problemas sociais muitas vezes ligados à própria vivência e de se expressar livremente. Uma manifestação artística que se originou de um povo silenciado pela sociedade, mas que encontrou na poesia, na dança e no grafitti, uma forma de gritar. “Revolução”, música de Thais Santos que foi apresentada na abertura do evento, retrata este cenário: “A revolução nasce do silêncio”.
No momento de visita às obras expostas, Gueg contou um pouco da história de cada painel, demonstrando que cada elemento foi selecionado pela Associação com dedicação e carinho pelas pessoas representadas. “Eu guardei materiais de todos os eventos que fui, e não sabia o porquê. Hoje, a gente sabe: para contar uma história que ninguém conta”. Entre as obras, estavam discos de artistas pontagrossenses, fotografias de grafitagem, registros de batalhas de rima e outros elementos que integram a identidade da cultura Hip Hop no município. O artista destaca que reunir os elementos foi um processo trabalhoso, além da curadoria realizada minuciosamente: “Tem muitos materiais que ficaram para trás. Nós escolhemos os melhores, com mais história e que coubessem mais na personalidade da associação”.
Já, a artista Celina de Aguiar iniciou sua trajetória no Hip Hop aos quinze anos, participando de batalhas e foi uma das primeiras mulheres a rimar na Concha Acústica em 2017. Crescida na periferia, relata que se sentiu acolhida pelo Hip Hop, que ampliou sua visão de mundo. “O Gueg valoriza o trabalho do pessoal da cidade. Se não fosse ele, a gente não teria esse espaço”. Celina conta que a exposição teve grande significado para ela e que ver seu esforço sendo representado lhe traz uma motivação: “A gente luta para ter nosso espaço. Ter uma exposição assim é muito gratificante, porque dá valor ao nosso trabalho e revive lembranças das nossas vivências”.
Já o coordenador de projetos do Museu dos Campos Gerais, Felipe Bronoski, evidencia a importância de trazer diversos movimentos sociais para as exposições. “É um museu público, de uma universidade pública. Se nós queremos uma universidade cada vez mais plural, também temos que aderir essa ideia de um museu que dialogue e se abra com a sociedade e que seja cada vez mais multifacetado”. Bronoski acredita que, desta forma, ao ocupar o espaço no museu, o Hip-Hop também passa a ocupar um lugar na memória cultural da cidade.
Texto: Ana Luísa Runho
Fotos: Maria Eduarda Almeida
Revisão: Emanuelle Nunes
Supervisão: Elaine Barcellos de Araújo