Todo ano, 22 indivíduos são eleitos para pilotar na Fórmula 1, o pináculo do automobilismo. O grupo tem o privilégio de trabalhar com algo que gosta: ser um corpo que passa a 300km/h pelo tempo e espaço por pistas como Mônaco, Monza, Silverstone e Interlagos. Muitos ao redor do mundo têm esse sonho. Desde criança, eu também tive. Para muitos que não conseguem seu espaço até lá ou que não almejam a F1, há outras opções: seguir nos monopostos em solo estadunidense ou japonês com a Fórmula Indy e a Super Fórmula; se quiser ir pela linha dos Gran Turismos e Protótipos, tem a GT World Challenge e o Mundial de Resistência. Se os olhos brilham com carros mais parecidos aos do dia a dia, há a NASCAR (tanto estadunidense e brasileira) e a Stock Car Brasil.

 

Ponta Grossa, como imaginam, está longe de ser um polo automobilístico do país. Não somos uma região com tradição no esporte como São Paulo e Rio de Janeiro e nem temos um autódromo de destaque nacional como Cascavel e Londrina. Mesmo apaixonado por esse esporte, nunca pude dar nem o primeiro passo. De qualquer forma, minhas primeiras memórias da vida envolvem corrida e carros: lembro do meu avô me ligar todo domingo para perguntar quem ganhou o GP de F1. Passei anos assistindo Carros no meu antigo DVD. Passava horas jogando F1 ‘06, Need For Speed e NASCAR ‘08 nos videogames que tive. Com o passar dos anos, ficou cada vez mais claro que não passaria a vida no assento de um carro de corrida. Depois de anos procurando um jeito de usar todo o aprendizado das disputas automobilísticas, cogitei o Jornalismo como uma forma de expressar tudo isso. Mesmo com a dificuldade desse ramo nichado na cidade, surpreendi-me ao descobrir que um carro de categoria nacional seria exposto no Plaza Campos Gerais e ainda com o fato do piloto desse veículo ser ponta-grossense. Não perdi tempo e fui fazer fotos para esse portfólio.

O piloto da máquina exposta é Guilherme Figueiredo. Natural de Ponta Grossa e também empresário, é apaixonado pelo automobilismo desde os seis anos, sobretudo por acompanhar Ayrton Senna em seu auge. Mesmo após a perda do herói em 1994, Figueiredo queria começar no kart. Mas não teve sucesso. “Queria, mas não tinha como e outra dificuldade é que eu não tinha condição financeira para isso. Meu pai sempre me orientou e falou, ‘filho, é muito difícil, vai ter que viajar para treinar, nós não temos condições, a gente precisa dar um passo de cada vez’”. Após anos só assistindo, foi a partir da carreira empresarial que a realização do sonho foi possível. “Recentemente nossa empresa (Agrocete) começou a patrocinar um piloto, eu comecei a conviver e aquilo foi voltando a vontade de pilotar, e aí eu decidi iniciar aos 43 anos”. 

O carro em questão pilotado por Figueiredo é o Porsche 911 GT3 Cup, da geração 991. Com um motor traseiro flat 6 gerador de 460 cavalos, o modelo é usado na categoria Trophy, que funciona como a porta de entrada do campeonato monomarca no Brasil. Quanto à marca, a Porsche é a minha favorita faz bons anos e por uma série de motivos. Foi a montadora que resolveu borrar a linha tênue entre um carro de uso diário e uma máquina de competição com o próprio 911 GT3 de produção. É a marca que ousou criar um motor que soa como uma sinfonia com apenas 6 cilindros. É dona de 19 troféus das 24 Horas de Le Mans, a maior corrida de resistência do mundo que ocorre em solo francês. A Porsche consegue transformar o hábito de dirigir um carro em uma experiência.

Com o carro, o empresário corre na categoria Trophy do campeonato e ainda almeja o progresso na competição. “Como estou começando tarde, entendo que a Porsche Cup é o auge das minhas possibilidades. Ano que vem eu vou subir para Sprint Challenge, e o meu objetivo principal é, em até 4 anos, estrear na Carrera Cup”, explica. 

Figueiredo não é único quando se trata de começar “tarde” no esporte a motor. Entre alguns exemplos, uma das minhas maiores inspirações é Ken Block. Nascido em Long Beach, na Califórnia (EUA), no ano de 1967, Kenneth Paul Block veio ao mundo imerso nos esportes radicais. Depois de conhecer Damon Way na Palomar College, ambos fundaram a DC Shoes em 1994, vendida em 2004 para Quiksilver. Com a venda da sua parte, Block teve a chance de realizar seu sonho de ser piloto de rally, aos 38 anos. Após seus primeiros campeonatos com apoio da Subaru, Ken, criou sua própria equipe, a Hoonigan Racing Division. Além dos campeonatos disputados, Ken Block se tornou um ícone global no mundo automotivo até seu falecimento, em 2023. Muito desse sucesso e influência se deve ao piloto ter documentado a construção de carros modificados por sua equipe e usá-los na série Gymkhana. Quando perguntado sobre qual seria seu legado, Block afirmou que sempre busca motivar as pessoas a inventarem coisas e evoluir, sem medo das mudanças. “Seja criativo, viva uma vida divertida… e não seja babaca”. 

Quanto a começar no esporte a motor, mesmo tarde, Guilherme Figueiredo já tinha dado esse passo, mas ao se tratar de criatividade, foi sua filha que brilhou. Quando conheço um piloto novo, sempre gosto de reparar no capacete, pois é nestes que os corredores podem se expressar melhor. Todo casco traz uma história e um significado. Senna tinha seu capacete icônico por regras do mundial de kart da época, que exigia as cores da bandeira do piloto presentes. Rubens Barrichello escolheu o design e as cores laranja e azul depois de ver Ingo Hoffmann e Raul Boesel batalhando na chuva. Já para Jacques Villeneuve, canadense campeão da F1 em 1997, o desenho foi feito ainda criança, baseado em um suéter colorido de sua mãe, mas com listras formando um V nas laterais em homenagem ao seu pai, Gilles, piloto da Ferrari quando faleceu em 1982. Na mesma linha, o design do piloto vem de sua filha: “Eu decidi correr e meus filhos já me acompanhavam. Quando cheguei em casa com essa notícia, a minha filha, na época tinha seis anos, perguntou para mim se eu tinha um capacete e se podia fazer um para mim. Como não tinha, ela fez. Na hora, já gostei, falei que tava aprovado e pedi para ela me explicar o que significava. Aí ela disse: ‘o rosa significa eu e o azul é o Henrique’ (irmão). E ela pediu pra colocar coisas deles em cada parte, então no rosa dela tem balé, unicórnio e patins. No azul dele tem fusca, foguete e dinossauro. E ainda perguntei: ‘E o dourado?’. E ela respondeu: ‘A faixa dourada é a mamãe’. É a nossa aliança de casamento representando a união da família. Tem os dias dos aniversários atrás e, por fim, eu pedi só um triângulo, que significa família, trabalho e o eu. O eu sendo como fé, cuidado com a saúde e realização pessoal” descreve.

 Aproveitando a temática de significados, pilotos costumam ter algumas superstições com números também. Mesmo nem pilotando um kart, eu escolheria o #12 para correr por várias razões: a soma do dia e mês do meu aniversário é 12, Senna venceu seu primeiro título em 1988 com o 12 no carro, comecei a assistir a F1 com mais regularidade em 2012, mas peguei para aprender sobre o esporte nos mínimos detalhes com 12 anos. Ainda por cima, 12 tem sido meu “número da sorte” por um bom tempo. Logo, na onda dessa curiosidade, perguntei o porquê de Guilherme usar o #5. “A maioria dos números que eu gosto, já tinha piloto usando, então eu fiz uma soma (dos dias dos aniversários no capacete): 8+2+11+2=23. Dois mais três, cinco. Aí eu comuniquei a Porsche Cup e pedi para eles travarem o número para mim”. 

Como dito antes, o que me levou a prestar o vestibular para Jornalismo foi a chance de trabalhar nesse mundo do esporte a motor, seja como repórter de pista, como narrador ou comentarista, já que seria impossível ter uma carreira atrás do volante. Mas até a profissão jornalística fica mais complicada em Ponta Grossa, principalmente pela falta de estrutura e tradição no esporte. Logo, posso não ser um dos 22 eleitos para pilotar na F1, mas ainda acredito que posso ser o escolhido para narrar um campeonato, uma 500 Milhas de Indianápolis, uma 24 Horas de Le Mans ou de Nurburgring e seguir os passos de gigantes da comunicação como Luciano do Valle, Mariana Becker, Geferson Kern, Reginaldo Leme e Cassio Cortes. Ver um carro que gosto tanto e conversar com um piloto de uma categoria muito bem-quista no país é o mais longe que cheguei até agora nesse um ano e meio de Jornalismo, mas, assim como todo piloto que se preze, anseio por mais.

Fotos: Matheus Fornazari

Revisão: Emanuelle Nunes

Supervisão: Ivan Bomfim

Texto: Matheus Fornazari

 

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